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Assis,09/08/2026

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A cidade onde o silêncio virou lei

Narrativa alegórica aborda os limites entre medidas de proteção, liberdade de expressão e o direito da população de fiscalizar e questionar o poder público.

Redação Assis Alerta
A cidade onde o silêncio virou lei Redação Assis Alerta

A PARÁBOLA DA CIDADE ONDE O SILÊNCIO VIROU LEI

Em uma cidade do interior chamada Esperança, havia um grande salão onde os representantes escolhidos pelo povo se reuniam para discutir os problemas da comunidade.

Os moradores acreditavam que aquele espaço pertencia a todos. Afinal, os ocupantes das cadeiras haviam recebido do povo apenas um mandato temporário, e não a propriedade da cidade.

Com o passar do tempo, porém, alguns integrantes do salão começaram a agir como se suas cadeiras fossem tronos. Faziam discursos sobre transparência, mas não gostavam quando alguém acendia uma lanterna sobre seus próprios atos. Defendiam a fiscalização, desde que o fiscalizado fosse sempre o outro.

Quando um cidadão apontava uma possível irregularidade, eles não respondiam com documentos. Quando um comunicador fazia perguntas difíceis, não ofereciam explicações. Quando alguém encontrava coragem para enfrentá-los publicamente, buscavam uma maneira de afastar aquela voz.

Então surgiu uma estratégia.

Toda crítica passou a ser chamada de perseguição.
Toda cobrança passou a ser apresentada como ameaça.
Toda presença incômoda passou a ser tratada como vigilância.
Toda insistência por respostas passou a receber o nome estrangeiro de stalking.

Os representantes procuravam o guardião das leis e diziam:

— Estamos com medo daquele que nos questiona.

E, antes mesmo que o acusado pudesse contar sua versão, surgiam ordens para que ele permanecesse distante, não mencionasse determinados nomes e evitasse certos assuntos.

Assim, a medida criada para proteger pessoas contra perigos reais começou, naquela parábola, a ser usada como um muro entre o poder e a fiscalização popular.

Os comunicadores passaram a escolher cuidadosamente cada palavra. Os moradores começaram a apagar comentários antes de publicá-los. Nas praças, as pessoas olhavam para os lados antes de conversar sobre política.

Não havia uma proibição escrita dizendo que todos deveriam permanecer calados. O silêncio nasceu do medo.

Certo dia, um velho jornalista encontrou uma criança diante do salão e perguntou:

— Por que você está olhando para esse prédio?

A criança respondeu:

— Estou esperando que alguém abra as janelas.

— Mas as janelas já estão abertas — disse o jornalista.

A criança balançou a cabeça:

— Não estão. A luz entra, mas a verdade não consegue sair.

O jornalista compreendeu que uma cidade não perde sua liberdade somente quando os jornais são fechados ou quando as pessoas são proibidas de falar. A liberdade também desaparece quando o medo das consequências se torna maior do que a coragem de fazer perguntas.

Naquela noite, ele escreveu:

“A Justiça é um escudo para proteger direitos, não uma espada para ferir a crítica. A autoridade que se considera ameaçada por toda pergunta talvez não tenha medo do cidadão, mas da resposta que precisaria oferecer.”

Na manhã seguinte, o texto apareceu nos muros, nas portas, nas telas dos celulares e nas conversas das famílias.

Os representantes tentaram descobrir quem havia escrito aquelas palavras, mas perceberam que já não existia apenas uma voz. A frase havia se tornado de toda a cidade.

E o povo finalmente entendeu:

Quem ocupa uma função pública deve aceitar fiscalização, questionamentos e críticas dentro da legalidade. Medidas de proteção não podem ser transformadas em instrumentos de intimidação, assim como a liberdade de expressão não pode servir de justificativa para ameaças ou perseguições verdadeiras.

A democracia vive justamente nesse equilíbrio: proteger as pessoas sem proteger o poder das perguntas que ele tem obrigação de responder.

Moral da parábola

Quando toda crítica é apresentada como ameaça, o poder deixa de buscar proteção e começa a procurar silêncio. Mas uma cidade verdadeiramente livre não teme perguntas: exige respostas.




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